Até recentemente, a regulação era vista como um obstáculo à inovação financeira. Hoje, no setor de tokenização de ativos reais, é vista como fator de aceleração. Isso porque os avanços regulatórios têm viabilizado escala, reduzido incertezas e clarificando as regras. Essa mudança de fase altera profundamente o comportamento de investidores, comitês e profissionais de investimento.
A regulação funciona como infraestrutura
Infraestruturas raramente recebem crédito pelo crescimento que permitem. Estradas não criam negócios, redes elétricas não inventam indústrias e sistemas de liquidação não geram retornos por si só. Mas, sem eles, a atividade econômica não escala.
A regulação exerce papel semelhante no mercado financeiro. Ela padroniza expectativas, reduz assimetria de informação e define responsabilidades. Não elimina riscos, mas pode torná-los identificáveis, mensuráveis e comparáveis. É isso que permite decisões institucionais.
Quando o arcabouço regulatório é frágil ou ambíguo, o maior risco é o risco reputacional: o medo de associação, de interpretação posterior, de questionamentos por reguladores, investidores ou clientes. Nesse cenário, mesmo boas operações deixam de acontecer pela falta de conforto institucional.
À medida que o arcabouço amadurece, esse risco se comprime. O custo de capital cai, a previsibilidade aumenta e o mercado passa a operar em outra marcha.
Regulação madura e redução de risco reputacional
Um ganho frequentemente subestimado quando o arcabouço amadurece é a redução do risco reputacional. Para escritórios, advisors e gestores, esse risco pesa tanto quanto o risco financeiro. Recomendar ou estruturar uma operação fora de um trilho regulatório claro significa assumir um ônus que vai além do eventual default.
Com regras mais bem definidas, esse custo diminui. O profissional passa a operar dentro de limites conhecidos, com deveres claros e linguagem comum com jurídico, compliance e comitês de investimento. A conversa deixa de ser defensiva (“será que pode?”) e passa a ser técnica (“como estruturar melhor?”).
No Brasil, esse movimento é visível em segmentos como a Renda Fixa Digital. A consolidação de regimes específicos como a RCVM 88, que se tornou o enquadramento base para a maior parte das ofertas digitais, trouxe previsibilidade ao processo com obrigações e salvaguardas claras.
O efeito prático é visível: maior participação institucional, menor resistência interna em estruturas novas e mais conforto para levar operações ao comitê.
Tradicional x tokenizado: o que realmente muda
Com o amadurecimento regulatório, a comparação entre estruturas tradicionais e tokenizadas se torna mais objetiva.
O núcleo da análise continua o mesmo. O risco de crédito continua residindo no ativo subjacente. Lastro, garantias, covenants, fluxo de caixa e governança seguem sendo os pilares da decisão.
O que muda está na camada operacional. O registro tende a ser mais transparente e rastreável, eventos como pagamento de juros e amortizações podem ser automatizados e a liquidação pode ganhar eficiência. Há redução de fricção ao longo do ciclo do ativo, maior transparência para investidores e melhor controle de titularidade.
Esses ganhos melhoram a execução. Isso significa menos erro operacional em estruturas de crédito, mais previsibilidade e potencial redução de custos ao longo do tempo. É por isso que, na prática, a adoção institucional começa pela renda fixa, justamente pelo encaixe natural entre regulação, fluxo previsível e controle.
Quando o arcabouço amadurece, o mercado acelera
Regulação madura não elimina ciclos, não protege contra decisões ruins e não substitui análise. O que ela faz é destravar o que já faz sentido economicamente, removendo incertezas que antes impediam a escala.
Para o profissional de investimentos, isso muda o jogo. Há menos risco reputacional, mais espaço para estruturar soluções fora da prateleira e mais confiança para atuar em novas infraestruturas sem romper com fundamentos clássicos de crédito e governança.
No fim, a lição é simples: inovação financeira relevante não acontece à margem da regulação. Ela acontece quando a regulação deixa de ser exceção e passa a funcionar como infraestrutura. É nesse momento que o mercado deixa de experimentar e começa, de fato, a escalar.




